Eremitas Suburbanos

O meu isolamento social (e de muitos outros em Portugal) começou a 16 de Março e, ao fim da primeira semana, fiz a crítica da mesma que podem ver aquiSpoiler Alert, correu bastante bem!

Mas claro que apenas uma semana em casa não é algo assim tão transcendental! O mais complicado foi gerir o tempo pessoal e a distracção dos filhos, mas estabelecemos uma série de rotinas e foi bom. Ainda assim foi uma semana em que praticamente não trabalhei porque o “regresso laboral virtual” dar-se ia só na semana seguinte.

A segunda semana de isolamento rapidamente tornou-se um pouco mais caótica porque, apesar de já ter também a minha querida esposa em casa comigo e com os 2 filhos, estamos ambos em tele-trabalho. Ela trouxe o PC (não muito portátil) da sua empresa  e instalou o seu posto de trabalho na sala de jantar, longe dos pequenos, senão eles não a deixariam em paz. Enquanto ela trabalha eu entretenho-os e vou tentando trabalhar um pouco também.

Dois dias por semana dou aulas online de manhã e de tarde e, nesses dias, sou eu que desapareço para a sala, enquanto o resto da família fica em brincadeiras no andar de cima.

Estava um pouco receoso de como correria a experiência de dar aulas online, que me sentisse estranho, a falar para o boneco e com uma série de silêncios desconfortáveis. Mas tanto eu, como os restantes professores com quem falo, estamos bastante satisfeitos com a transição. Nunca se sabe a 100% se os estudantes estão de facto atentos e a trabalhar ou a ver algo no Netflix mas, vistas bem as coisas, isso também acontece presencialmente. Grande vantagem do online: poder ter o som dos estudantes em mute/desligado, que tranquilidade! Os resultados finais mostrarão se o ensino online é igualmente eficaz mas, a meu ver, acho que é um progresso interessante e por mim já nem saía mais de casa!

Fora os momentos de aulas e alguns outros trabalhos, tive que estar mais eu a cargo dos meus filhos e as rotinas criadas anteriormente foram rapidamente diluídas ou esquecidas, entrando tudo mais no campo do improviso. Fazer exercício voltou a ser apenas uma intenção e os blocos de tempo para televisão, jogos e brincadeiras ficam todos baralhados conforme dá mais jeito.

Cozinhei várias vezes mas felizmente a minha esposa cozinhou mais (felizmente porque o resultado final dela é bem melhor). As saídas foram mínimas, apenas 2 ou 3 idas às compras. Os pequenos saíram apenas 2 vezes, no início, para uma volta rápida de bicicleta.

A Páscoa foi praticamente a mais solitária que tivemos pois fomos só nós os 4. Apesar disso, ainda deu para fazer caça aos ovos de chocolate indoor! (Digo praticamente a mais solitária pois lembro-me dum ano em que passei  o almoço de Páscoa sozinho no Macdonalds… 2/4don’t ask why!).

Continuo a sentir que com a casa cheia é difícil ter tempo para tudo que se quer fazer mas, em retrospectiva, num mês resolvi uma série de burocracias pendentes, fiz um plano de marketing, escrevi uma história para um concurso e também escrevi aqui. Joguei e brinquei com os filhos, compramos Legos e construímos um farol e um avião… até os deixei brincar um bocadinho com os Legos no fim (mas com a construção do avião diverti-me eu).

Fizemos uma série de vídeos para enviar por WhatsApp para a família, cada um mais ambicioso que o outro, com efeitos especiais, canções e videoclips. Isto não só os entretém (principalmente à minha filha mais velha) como também a mim pois retomei o meu gosto pela edição de vídeo e por tocar guitarra. O videoclip da canção que fizemos sobre a quarentena já chegou às 400 visualizações e até passou na televisão! (Felizmente lá excluíram a parte da minha cantoria visto que a estrela do vídeo era a Sara).

Joguei finalmente, do início ao fim, o The Last of Us 4/5, que hoje em dia é mais ou menos um documentário da situação que vivemos e, como não se pode viajar nem andar pela rua, estou a jogar também o The Tourist e The Pedestrian, ambos muito bons

Parecendo que não, até fiz bastantes coisas e, muitas delas, são coisas que tenho mesmo gosto em fazer!

Num instante passou um mês e, dado os tempos trágicos e dramáticos que vivemos, sinto-me algo envergonhado de admitir isto mas… foi impecável! Continue a quarentena o tempo que for preciso que nós ficamos bem! Aproveitem o tempo para fazer o que sempre ficou por fazer e vivam a vida mais um bocadinho, há muito que entreter em casa!

5/5 barbas compridas de eremita suburbano – ninguém vai esquecer esta quarentena. Obviamente que quem tem cortes salariais ou instabilidade nos empregos não estará tão bem e a economia vai sofrer bastante… mas esta é a crítica do meu mês e o que eu sinto de momento. Enquanto podermos estar bem, estejamos! Espero que, no meio de tanta tragédia, possamos ficar também com algumas boas memórias do tempo em que o mundo ficou simultaneamente em pausa e virado de pernas para o ar, eu certamente ficarei!

5 comentários em “Eremitas Suburbanos

  1. Que belo texto! Também pude aprender tanta coisa durante esse isolamento social… Sente-se mais próximo de sua família após esse período? No fim das contas, parece que esses relacionamentos e afetividades é o que realmente importam!

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    1. Obrigado Gabriel! Sim, acabamos por ter, de forma quase inédita, a oportunidade de uma convivência 24 h. Apesar de todas as distracções e afazeres que, mesmo assim temos durante o dia, conseguimos estar muito mais presentes e próximos nas vidas uns dos outros do que nas nossas rotinas pré-isolamento. Keep Safe!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Posso confirmar: a vossa quarentena é fora de série. Com os vossos vídeos, comentários e séries, conseguem por toda a família distraída e bem disposta. Estamos sempre à espera de mais.
    Parabéns por tanta imaginação e desempenho artístico à altura.

    Curtido por 1 pessoa

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