Dark Dining

Este ano tentei surpreender a minha esposa com um jantar especial já que o evento Dark Dining calhava precisamente no seu dia de aniversário. Devido às restrições dos confinamentos de fim de semana o jantar teve que ser adiado por duas vezes e finalmente agora foi possível realizar-se.

Mas então o que é isto do Dark Dining? Já tinha ouvido falar em outros países e é simplesmente a experiência de jantar às escuras partindo do princípio que a escuridão nos fará concentrar mais a fundo no cheiro e sabor da comida e usufruir da mesma de forma mais intensa. Pode. Há restaurantes noutros países que levam o conceito mesmo a fundo, com espaços totalmente escuros em que os funcionários são invisuais e que partilham connosco as suas técnicas, noutros casos são funcionários comuns com uns óculos de visão nocturna. Aqui em Portugal, o Dark Dining não é um novo restaurante mas sim uma série limitada de eventos que apenas adaptam o conceito de forma superficial, quase como uma sombra do que podia ser.

A expectativa era algo deste género…

Pois bem, então foi assim:

Cheguei e sentei-me com a minha esposa (às claras e não às escuras). Já tínhamos escolhido previamente que um comeria o menu de carne e o outro de peixe (havia também a opção vegetariana) e, se conseguíssemos acertar com os pratos no meio da escuridão, íamos partilhando a refeição. As paredes estavam forradas com uns panos pretos para dar mais ambiente mas convenhamos que daí até ser tudo às escuras vai um grande passo… ou talvez pequeno, se desligassem todas as luzes.

A solução usada para proporcionar a escuridão foi fornecerem uma venda para cada um, o que dá um certo toque picante à experiência mas que, na prática é um bocado incómodo para os olhos. Disseram-nos que não necessitaríamos de estar sempre com a venda posta, que nos avisariam quando estivesse a chegar cada prato para só a colocarmos nesse momento. Faz sentido senão,  entre pratos , possivelmente adormeceria ali no escurinho… mas continuo a achar que o ideal seria uma experiência totalmente às escuras com um serviço bem coordenado de forma a proporcionar momentos de espera curtos.

Chegou a entrada e tacteei para encontrar a colher e meti-a à boca e…. estava vazia, obvio! Tacteei mais um bocadinho e lá encontrei um copinho que tinha uma salada que até estava boa. Foi giro tentar identificar os sabores dos vários ingredientes e acho que até o conseguimos fazer com algum sucesso. Tiramos a venda quando achamos que o recipiente estava praticamente vazio e confirmamos as nossas suposições com base nos restinhos. 4/5

De seguida  veio o prato principal, de carne para a minha esposa, de peixe para mim. Na primeira garfada apanhei um bocadinho de cebolada e na terceira ou quarta lá apareceu o peixe que me pareceu, inicialmente, atum fresco. Só mais para a frente é que consegui espetar o garfo no que rapidamente identifiquei como uma batata cozida com pele.  Percebi de imediato que estava a comer um prato muito tradicional, do género de prato a que torcia o nariz quando a minha mãe me servia em casa. À minha esposa calhou uma carne que inicialmente pareceu vitela estufada com arroz. Nenhum dos dois pratos estava intragável mas também não estavam nada de especial e, mais do que isso, sobretudo não eram pratos bem escolhidos para este tipo de experiência. Acabou por tornar-se um jantar divertido devido à dificuldade de apanhar os alimentos, cortar a carne ou acertar com a boca sem ficar com a cara toda lambuzada. Tive várias garfadas acompanhadas do meu próprio cabelo, o que poderá indicar que está na hora de o ir cortar. No que toca à qualidade sensorial e gastronómica da coisa, foi fraquinho porque era relativamente fácil de desvendar o que se estava a comer mas não era particularmente saboroso. Os pratos principais estavam mais próximos do “prato do dia” de qualquer restaurante/café do que de uma refeição especialmente pensada para um evento destes. Foi apenas um Dark Dining mas tínhamos a expectativa que fosse um Dark Fine Dining, uma experiência um pouco mais gourmet, talvez com um menu de degustação feito de vários pequenos pratos, cada qual comido com uma garfada ou duas, sem a necessidade de cortar nada. De forma que a diversidade de sabores fosse o foco e não a dificuldade maior ou menor de os comer. Fraquinha esta parte 2/5

Por fim veio a sobremesa e era bem boa, sentimos uma “capa” fofa e crocante e um recheio interior de caramelo quente e morango. Coisa boa para gulosos, aí sim fiquei consolado 5/5.

Acabamos de comer, o pianista acabou de tocar (sim havia um pianista e tocava bem, mas ninguém estava a olhar para ele por isso bem podia estar a fazer playback) e um ecrã gigante revelou o que de facto comemos. Se quiserem saber o que era, basta selecionar o espaço abaixo.

Entrada

Creme de queijo com frutas tropicais e malagueta

Prato

Cavala com molho vilão / Fricassé de frango

Sobremesa

Fondant de caramelo e compota de morango

Como conclusão, dou os parabéns aos organizadores por trazerem para Portugal esta ideia, é preciso mais coisas deste género para criar serões diferenciadores. Por outro lado, tenho que ser realista… uma hora e meia depois de entrarmos, estávamos a sair do restaurante um bocado decepcionados com a experiência. O prato principal desiludiu bastante (e também o facto de ser só um prato) e houve pouca dedicação da parte da organização em tornar a noite mais memorável. Fosse com explicações mesa a mesa por parte dum chef, fosse por uma decoração mais imersiva (que podia ser bem minimalista se o espaço estivesse totalmente às escuras)  ou por uma experiência mais lúdica (com uma espécie de jogo de adivinhas dos aromas e sabores). Tal como está e tendo em conta a qualidade preço, fica num 3/5

Vá, nem é preciso muito investimento, só um pouquinho mais de empenho. Resolvam isto e convidem-nos para uma segunda ronda mais entusiasmante.

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