O fim justifica os meios? E o Princípio?

O Princípio

Esta mini série idealizada por Bruno Nogueira é uma espécie de extraterrestre no panorama televisivo nacional. A ideia base parece o início de uma anedota:

5 amigos sentam-se numa mesa para jantar e…

e a partir dessa premissa comum surge o improviso do trabalho colaborativo sob pressão.

Em 6 conjuntos de 2 horas, Bruno Nogueira, Nuno Markl, Filipe Melo e Salvador Martinha escreveram 6 histórias que, dadas as circunstâncias e o grupo de criadores envolvidos, são obviamente bastante disparatadas e com muitas sequências completamente nonsense que, sob uma segunda revisão mais ponderada, provavelmente não avançariam… mas a ideia era precisamente essa, permitir o ridículo e o erro.

A primeira parte do programa mostra esta fase de escrita frenética interrompida por distrações impostas pela produção (luzes a piscar, um anão bailarino, um homem nú a pintar, etc). Poderíamos pensar isto como metáforas para quando a nossa mente vagueia por assuntos acessórios mas acho que estaríamos a ir longe demais, é apenas mais um disparate para tornar o processo mais louco e divertido.

Os 4 parceiros de escrita têm uma boa dinâmica entre si e claro que algumas ideias lançadas ao ar são rejeitadas (algumas delas francamente boas até) mas parece ter havido um contributo equilibrado entre cada um deles e o jeito de garotos a divertirem-se enquanto imaginam filmes é cativante.

O Meio

Depois de escrita a história vemos uma montagem muito breve das reuniões com a equipa de produção e actores já em cena, prontos a filmar. Na minha opinião, esta fase poderia ser mais desenvolvida e proporcionar também material relevante para ser mostrado no ecrã. Um making of divertido que mostrasse os problemas que foram surgindo… mas suponho que as equipas que estão atrás das câmaras pretendam manter-se sobretudo atrás das câmara e, para compensar, temos sempre uns bloopers finais.

O Fim

É necessário dar o reconhecimento aos 4 actores que aceitaram o desafio de se prestarem ao ridículo que daqui poderia surgir. Jéssica Athayde, Albano Jerónimo, Nuno Lopes e Rita Cabaço, acompanhados por Bruno Nogueira, entregaram-se todos de corpo e alma ao projeto e viram-se provavelmente envoltos nas cenas e takes mais ridículos das suas carreiras. Achei piada sobretudo ao papel de Albano, sempre um galã nos seus outros projetos, transformando-se aqui num tresloucado aos berros. Valorizo também o facto da representação dos personagens manter a sua coerência apesar da incoerência propositada dos textos. Aqui parte da responsabilidade virá da escrita mas também mérito dos actores.

Mas O Fim vale a pena? As narrativas criadas valem por si só?

Mais ou menos… se alguém visse só O Fim sem qualquer tipo de enquadramento de como lá se chegou provavelmente acharia aquilo um disparate sem sentido nenhum. Mas por alguma coisa é que o programa mostra o processo e não só o seu resultado, o conceito é mesmo esse. Apesar disso vi os episódios sempre com uma curiosidade (mórbida?) do que aconteceria de seguida e de como iriam acabar. Não ri às gargalhadas como certamente os envolvidos no processo terão rido, mas tive sempre um sorriso nos lábios e usufrui satisfeito de cada episódio. Gostei especialmente da criatividade envolvida na materialização da história passada em alto mar (apesar da acção decorrer numa residência com jardim) e da sinceridade singela da produção ao acabarem o episódio com uma imagem e texto a dizer “não tivemos orçamento nem tempo para filmar esta parte”.

É a coisa mais genial de sempre?

Não! É uma série escrita em cima do joelho (ou neste caso, do palanque) , o que esperavam?

É uma série interessante sobretudo para quem gosta do campo criativo e sempre pensou em escrever histórias ou fazer filmes. Perceber como, para se fazer algo, basta ter vontade (e alguma sorte e oportunidade).

Bruno Nogueira diz na sua narração inicial:

“Porque fazemos isto? Porque queremos e porque podemos”

Ora aqui está uma das frases mais sinceras que já ouvi! Bruno Nogueira aproveitou o momento de especial estrelato que conseguiu alcançar durante a pandemia com o Como é que o Bicho Mexe? e conquistou a oportunidade de fazer uma série que, noutras circunstâncias provavelmente nunca seria financiada nem passaria na televisão.

Gostaria de ver uma segunda temporada?

Sim e não… por um lado é óbvio que seria possível fazer muitos mais episódios com base nesta ideia. Gostaria de ver especialmente uma tentativa de que cada episódio se focasse num género cinematográfico específico tentando ser uma vez um verdadeiro drama, outra um episódio de terror, etc. Por outro lado a ideia base funcionou perfeitamente neste conjunto de 6 episódios com um Princípio, Meio e Fim. 4/5

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s